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Pancetti, o livro e o coração . José Roberto Teixeira Leite
Num de seus auto-retratos mais famosos, Auto-Vida, José Pancetti representou-se com uniforme de marinheiro, no chapéu a fita do "Rio Grande do Norte", ao ombro as três listras vermelhas de primeiro sargento e sustentando com a mão direita erguida à altura do peito um livro de arte. Embora fruto, como qualquer auto-retrato de judiciosa observação, é ao mesmo tempo obra nostálgica e imaginosa, primeiro porque ao ser pintada, em 1945, havia quatro anos Pancetti não mais estava no serviço ativo da Marinha, e depois porque, ao que conste, nunca serviu na referida belonave. Isso, porém torna-se apenas um detalhe quando se observa como, nesse óleo de densidade psicológica excepcional, que ele próprio considerava uma de suas melhores obras, o grande pintor soube sintetizar os dois pólos em que se bifurcava sua personalidade - o marinheiro e o artista -, os quais coexistiram e se complementaram sem que um jamais sufocasse o outro.
Cabe indagar o porque das muitas dezenas de auto-retratos pintados por Pancetti, quantidade que, aliada à altíssima qualidade, transformam-no, ao lado de Eliseu Visconti, no artista brasileiro mais importante do gênero: não terá sido decerto por mera vaidade, nem pela vontade de, como Fausto, deter o momento que passa; muito menos por falta de modelos, ele que os teve às dúzias: tratava -se, isso sim, de uma obstinada busca pelo próprio eu, de um mergulhar incessante nas mais recônditas regiões do ser, do sutil diálogo entre pintor e sua alma materializada em rostos, vestes, posturas. Foi assim, debruçado sobre cais de si mesmo, que esse artista enriqueceu a pintura brasileira com uma série de obras admiráveis, representando-se como marinheiro ou como sacerdote, aqui como pai de família, ali como pintor, às vezes como agitador social e de outras como trabalhador rural, ora como grevista ora como almirante ou vagabundo de praia, até mesmo sob as negras vestes de deão de Canterbury!
Mas o detalhe de Auto-Vida que merece maior atenção é o livro que Pancetti segura junto ao peito e que por assim dizer serve de âncora a toda a composição - Ismos, do grande escritor Ramón Gómez de Ia Serna, figura seminal da vanguarda espanhola dos anos 20: publicada em 1931 em Madrid essa obra passa em revista, desde o ponto de vista personalíssimo do inventor das greguerias, os 25 ismos por ele considerados os mais significativos da arte de seu tempo, entre eles futurismo, simultaneismo, dadaísmo, picassismo, lhotismo, archipenkismo, riverismo, negrismo, monstruosismo e, com destaque especial, humorismo, pois o humor funcionou como leitor motivo de toda a enorme produção ramoniana.
Essa grande confusão de ismos à disposição de Pancetti nas páginas de um livro, cada qual a lhe apontar um caminho, podia ser responsabilizada pela expressão desconfiada e pelo olhar atônito do pintor, se essa mesma expressão e esse mesmíssimo olhar não estivessem presentes em praticamente todos os auto-retratos que produziu ao longo da carreira. Ora, levando-se em conta o fato de que Pancetti nunca foi dado a grandes leituras (sua sabedoria, como a de Portinari ou Guignard, era exclusivamente a pictórica, adquirida na prática e não em livros), pode-se concluir que a inclusão de Ismos na composição apenas serviu a Pancetti como ingrediente simbólico a sublinhar sua condição de artista, um artista comprometido com seu próprio tempo. Por outro lado, o título Auto-Vida dado à pintura revela como, para Pancetti, arte e vida eram uma coisa só, ele que poderia te dito, parodiando Walt Whitman: Camaradas, isso não é uma pintura, quem a toca está tocando um homem.
E já que falamos num grande poeta, e como os poetas costumam atinar sem rodeios e por intuição com aquilo que críticos e estudiosos só conseguem conceituar após complicadas elucubrações mentais, diremos que foi Pablo Neruda quem melhor parece ter compreendido Pancetti, ao defini-lo como um gran pintor de corazón puro. De fato, em suas marinhas e paisagens, figuras ou naturezas-mortas sobra pouco espaço para teorias e racionalizações: nelas tudo é transparente como água do mar que se toma entre as mãos. Essa simplicidade, o despojamento ascético da pintura de Pancetti (que iriam transformá-lo num dos pintores mais populares de seu tempo), explicam porque não aderiu ao Abstracionismo, num momento, os anos iniciais da década de 1950, em que, sob o impacto da recém-criada Bienal de São Paulo, tornou-se quase obrigatório fazê-lo - a menos que se queira ver, nas roupas multicoloridas espalhadas pela areia junto à lagoa, nos lindos quadros da série das Lavadeiras de Abaeté, um tímido e passageiro flerte com o não-figurativismo.
Pintor de corazón puro... Só a singela definição de Arte com que Pancetti inicia um caderno de notas (sem falar na profunda admiração que tinha pelos versos de Casemiro de Abreu) basta para atestar essa pureza de coração:
- Qualquer representação da vida deve ser real. O que é arte? A arte é a representação da vida através de instrumentos criados pelo homem. O que é o homem? A vida. Portanto, escrever, compor, esculpir ou pintar deve ser exatamente aquilo que representa esse mesmo homem, isso é, o real.
Graças a Deus Pancetti nunca seguiu ao pé da letra suas próprias concepções estéticas e realista não foi, apesar de a realidade lhe ter servido sempre como ponto de apoio ou referência, partitura que amorosamente interpretou e da qual, porque pintava com o coração, soube apartar-se quando a emoção assim julgou necessário. Amor e emoção são aliás vocábulos recorrentes sempre que se fala na pintura de Pancetti, o qual em certa ocasião chegou a confessar:
- Tudo o que pinto é com amor. Só sei pintar com amor.
Amor que para ele não significava transbordamentos ou sentimentalismo, já que a organização estrutural que sabiamente imprimiu a seus quadros revela preocupações de ordem racional capazes de impedir excessos sem asfixiar a emoção. Isso se pode constatar de forma mais nítida em certos retratos de crianças e de doentes mentais (pelos quais num dado momento da vida demonstrou estranho fascínio), ou nas naturezas-mortas compósitas, nas quais pioneiramente combinou naturezas-mortas propriamente ditas a interiores, marinhas, retratos e auto-retratos, tudo interligado por complexos vínculos de conotação simbólica. Nos retratos de loucos e de enfermos, sobretudo, sua arte atinge dramaticidade e pungência sem paralelos na pintura moderna brasileira, a não ser quem sabe em algumas das pinturas mais patéticas de Segall.
Característica que não pode deixar de ser destacada e que não possui similar na obra de qualquer outro pintor brasileiro é que Pancetti costumava grafar no dorso de seus quadros não apenas assinaturas, datas ou dedicatórias como também desabafos sentimentais ou confessionais, frases do quotidiano, trechos de poemas, nomes de musas e signos peculiares que, formando uma curiosa autobiografia, permitem-nos hoje recuperar detalhes de outro modo inacessíveis de sua carreira e personalidade, e que em certos momentos chegam a servir de complemento à pintura da frente. Assim, no dorso de um óleo pintado em 1945
Centenário de seu nascimento, escrevemos? - Pancetti, vaidoso como sempre, decerto nos corrigiria, dizendo que ainda faltam alguns anos.
Fonte: Catálogo da Exposição* 100 anos de Pancetti



