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Maria Stella Neves Vale

Foto Kátia Lombardi
Maria Stella Neves Vale
Anna Maria Parsons
No dia dois de dezembro de 2007, a sociedade sanjoanense e uma grande parte da comunidade musical compareceram à Igreja de São Francisco de Assis para um Concerto em homenagem à Maestrina Maria Stella Neves Valle. Justa homenagem pelos seus trinta anos de regente da Orquestra Ribeiro Bastos.
Para os que conhecem Stella a homenagem ultrapassa ao seu desempenho à frente da ORB.
Maria Stella Neves Valle licenciada em Pedagogia, Filosofia e Psicologia pela Faculdade Dom Bosco, também formada em Canto e Educação Musical pelo Conservatório de Música do Rio de Janeiro há muito atua em São João del-Rei, sua terra natal, como figura de relevo no mundo musical.
Neste espaço do jornal “Pérolas do Samba” fui convidada para escrever sobre Stella, e escolhi à guisa de testemunho pessoal um depoimento sobre a nossa convivência desde 1976.
Naquele ano, São João del-Rei comemorava com grandes eventos musicais conferências e uma Exposição, “ O bicentenário da Lira Sanjoanense”. Foi no contexto daquelas celebrações, com as quais me envolvi que conheci Stella, também cooperando para abrilhantar o Bicentenário da Lira.
Nestes 32 anos de convívio, ensejando pelo objetivo comum da preservação da memória musical de São João del-Rei fomos nos tornando colaboradoras e amigas uma da outra. Assim, é-me grato escrever sobre a capacidade de trabalho, disciplina e aspirações que distinguem Stella, tornando-a um dos pilares da música da cidade.
Stella herdou de seu pai, o Maestro e Bibliotecário Telêmaco Neves, a disciplina e o alto sentido da continuidade do trabalho. De sua mãe Dona Margarida Moreira Neves, mestra de primeiras letras, herdou o amor ao estudo e a aspiração de ser professora. Sobretudo a vontade interior imperiosa que é o ensinar. Não por qualquer outro motivo senão por que é ensinando que se aprende.
Stella foi colaboradora e suporte das iniciativas do seu irmão mais novo José Maria Neves, nos seus projetos de preservação do patrimônio musical da região, tanto como regente da ORB e um dos idealizadores da gravadora TACAPE Ltda, iniciativa ímpar no interior do Brasil.
Após a morte de seu irmão mais velho Lucas, Cardeal Moreira Neves imcubiu-se de organizar e por de pé o Memorial que abriga fabulosa biblioteca aberta ao público e sediada em imponente sobrado restaurado pela família Moreira Neves face à Matriz do Pilar.
Pouco tempo depois, a morte de José Maria colocou Stella diante do compromisso de assumir total responsabilidade pelo acompanhamento musical das funções litúrgicas das quais a ORB sempre se encarregou.
O CEREM encontrou em Stella o apoio generoso na doação do imóvel que é sua Sede, e também como doadora da quase totalidade do Acervo musical que o compõe.
Stella é conselheira vitalícia do CEREM e sua colaboradora assídua.
Deixo pra o fim mencionar Stella, a moça que cantava e que encantou o saudoso compositor Vicente Valle, tornando-se Maria Stella Neves Valle.
Profundamente religiosa Stella não se deixou abater pela perda do marido e dos irmãos queridos. Encontrou redobradas energias para continuar trabalhando como agente de transformações sociais, por um São João del-Rei melhor através da prática musical.
Anna Maria Parsons . Diretora geral CEREM
Fonte: Jornal Pérolas do Samba . Dezembro 2008
Sobre o seu pai, Telêmeco Victor Neves
Palmas para nossa maestrina soberana
Antonio Emilio da Costa
Se São João del-Rei é mesmo a ‘Terra da Música’, a Música em São João del-Rei tem nome. Se chama Maria Stella Neves Valle.
Dizer isso não é exagero. Dona Stella - como é respeitosamente conhecida a competente maestrina - há mais de meio século é uma das principais responsáveis pela perpetuação da tradição musical barroca na cidade, desde 1977 regendo a bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos. Tanto que hoje, seja no imaginário sociocultural de São João del-Rei, seja na realidade cotidiana do cultivo da música colonial na cidade, seu nome é o que primeiro surge quando o assunto é música, demonstrando como é forte a simbiose que existe entre a pessoa, a cidadã e aquela modalidade de arte. Tamanhas são a identificação e a dedicação que não é possível imaginar a Música são-joanense sem Dona Stella nem a existência de Dona Stella sem a presença da música.
Quem não a conhece e vê Dona Stella, na sua discrição e simplicidade, atravessar as ruas seculares, não consegue supor que aquela senhora morena, a seguir com passos firmes e determinados rumo aos ensaios, às missas e ao Memorial Dom Lucas, é uma pessoa poderosa, capaz de transmutar o tempo. De abrir no século 21 pausas para o século 18. De orquestrar, em atos e movimentos, notas musicais, pautas, partituras, vozes, instrumentos, intervalos, sons, silêncios, papéis, tinta, madeiras, cordas e metais, transformando-os em discurso e sentimento delicados. Tudo com determinação absoluta e com firmeza declarada; com emoção contida e com entusiasmo introspectivo. A realidade tem provado que não é preciso, e nem poderia, ser diferente.
Muito engana-se quem pensa que, ao reger sempre as mesmas obras e repertórios nas mesmas celebrações, a atuação de Dona Stella é automática, mecânica e repetitiva. Ao contrário, requer constante inovar e renovar sem, contudo, descaracterizar. E, até mesmo (por quê não?) criar e recriar. Não é isso o que ela, herdeira de rica ancestralidade musical, tão bem faz quando ‘tempera’ compassos, colore notas, altera timbres, redefine tempos?
Sem dúvida, o uso que Dona Stella faz de sua existência é uma declaração de amor à Música, a São João del-Rei, à cultura, à memória, a Deus e à humanidade. Por isso, nada mais justo e merecido do que a expressão de reconhecimento que a Atitude Cultural publicamente lhe confere na Semana Santa de 2010. Homenagem que nós, são-joanenses, coletivamente comungamos e aplaudimos.
Bravo! Parabéns! Obrigado, Dona Stella...
Antonio Emilio da Costa é jornalista e pós-graduado pela USP e UnB
Fonte: Gazeta de São João del-Rei 27/03/2010
Leiam artigo Tapetes de Rua São João del-Rei . Antônio Emílio da Costa



