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Paris anuncia megaprojeto da maior “desintoxicação urbana” da Europa: remove carros de avenidas históricas, planta 170 mil árvores e cria mais de 300 ruas escolares sem trânsito

Descrição

Paris reconstrói a mobilidade: remove carros, planta 170 mil árvores e cria ruas escolares seguras para reduzir poluição e proteger crianças.


Paris anuncia megaprojeto da maior “desintoxicação urbana” da Europa: remove carros de avenidas históricas, planta 170 mil árvores e cria mais de 300 ruas escolares sem trânsito

O que está acontecendo em Paris desde o final da década de 2010 não é uma operação cosmética, nem um plano de “embelezamento”. É uma reconfiguração ambiental profunda com consequências permanentes para a mobilidade, para a saúde e para o clima urbano. Sob a gestão da prefeita Anne Hidalgo, Paris lançou um conjunto de medidas que integram redução de tráfego, plantio massivo de árvores, remoção de carros de vias históricas e criação de “ruas escolares” – trechos onde automóveis são proibidos nos horários de entrada e saída das crianças, ou até permanentemente, dependendo da região.

Embora controverso, especialmente no início, o programa se tornou referência global e ganhou força ao longo dos anos, principalmente pela combinação de dados técnicos e resultados mensuráveis. O objetivo explícito não era apenas diminuir congestionamentos, mas proteger crianças, reduzir partículas tóxicas e transformar o espaço urbano em um ambiente respirável, fresco e seguro.

Hoje, Paris está pavimentando um caminho que outras metrópoles europeias observam com atenção – Londres, Milão, Barcelona e Amsterdam já estudam copiar partes do modelo.

Uma capital que historicamente pertenceu aos carros

Para entender a dimensão da mudança, é preciso lembrar que Paris foi uma das cidades europeias mais impactadas pela cultura automobilística no pós-guerra.

Seu anel viário (Boulevard Périphérique) se tornou símbolo de tráfego intenso, e avenidas centrais viviam congestionadas mesmo em horários aleatórios. A ideia de tirar carros de vias importantes era tratada como heresia política e risco econômico.

Mesmo assim, a partir de 2016, Paris começou a bloquear progressivamente trechos tradicionalmente dominados por automóveis, como parte das margens do Rio Sena, criando zonas pedonais e ciclovias contínuas.

A previsão catastrofista era de caos permanente e colapso logístico, mas os dados mostraram outra coisa: uma redistribuição modal significativa, com aumento de viagens a pé, de bicicleta e de transporte coletivo.

170.000 árvores para reduzir a temperatura e capturar poluição

O dado mais impressionante do plano é o número de árvores. Até 2030, o objetivo é plantar pelo menos 170.000 novas árvores, reorganizando parques lineares, criando microflorestas urbanas e transformando grandes vias em corredores verdes que funcionam como “ilhas de frescor”.

Essa decisão não surge do nada. Estudos publicados na Nature e pela Agência Europeia do Ambiente mostram que o plantio estratégico de árvores pode reduzir a temperatura urbana em até 5 °C durante ondas de calor.

Em Paris, isso se tornou vital após a onda de calor de 2019, quando temperaturas ultrapassaram 42 °C e hospitais registraram aumento de atendimentos por hipertermia.

Além do resfriamento, grandes árvores capturam partículas finas (PM2.5 e PM10), absorvem CO₂ e aumentam a permeabilidade do solo – um detalhe fundamental para uma cidade que enfrenta episódios de enchentes repentinas ligadas a chuvas intensas.

Menos carros, mais vida: as avenidas históricas mudam de função

Uma das estratégias mais simbólicas do plano parisiense é retirar carros de vias históricas e sensíveis. Trechos inteiros ao longo do Sena foram transformados em boulevards pedonais, cafés ao ar livre, áreas esportivas e ciclovias. Na prática, Paris está substituindo o domínio do carro pela permanência humana.

Além disso, outras ruas tradicionais passaram por reconfigurações de “acalmia de tráfego”, reduzindo velocidade máxima para 30 km/h em cerca de 80% da malha viária da cidade – medida que diminuiu acidentes, aumentou segurança e reduziu ruído urbano.

Embora a política tenha sido alvo de protestos de motoristas e de associações ligadas à indústria automotiva, pesquisas recentes mostram crescente aceitação da população, especialmente de famílias e idosos.

As “ruas escolares”: uma resposta direta ao impacto da poluição nas crianças

A cidade também decidiu atacar um problema amplamente ignorado: a exposição infantil à poluição. Em muitas grandes capitais europeias, crianças respiram ar carregado de partículas e óxidos de nitrogênio na porta das escolas, justamente nos horários em que motores ficam acelerados e veículos fazem filas.

Para quebrar essa lógica, Paris criou mais de 300 ruas escolares sem tráfego, algumas totalmente bloqueadas, outras com restrição de acesso em horários críticos. Em várias dessas ruas, o nível de dióxido de nitrogênio (NO₂) caiu entre 20% e 40%, segundo medições divulgadas pela prefeitura.

A motivação tem base científica forte. A Organização Mundial da Saúde estima que 7 milhões de pessoas morrem por ano devido à poluição atmosférica, e que crianças expostas a partículas finas apresentam maior incidência de doenças respiratórias, inflamações crônicas e queda no rendimento escolar.

Em poucas palavras: Paris está desenhando o trânsito a partir da fisiologia infantil, não da engenharia rodoviária.

O impacto silencioso na mobilidade

Quando Paris anunciou o fechamento de trechos inteiros para carros, muitos especialistas projetaram colapso no tráfego.

O que se viu, porém, foi um fenômeno já observado em Londres, Pontevedra e Barcelona: a “evaporação” do tráfego, onde parte significativa das viagens de carro simplesmente deixa de existir quando há opções seguras e confortáveis.

Nos últimos anos, Paris ampliou ciclovias protegidas, melhorou transporte coletivo e incentivou micromobilidade. A pandemia acelerou ciclovias temporárias que depois se tornaram permanentes. Hoje, Paris figura entre as cidades com maior crescimento de deslocamento por bicicleta no Ocidente.

Paris como “laboratório climático urbano”

A transformação parisiense se tornou uma referência internacional por um motivo simples: ela combina políticas ambientais, saúde pública, mobilidade e urbanismo em um único pacote coerente. É um laboratório vivo do que grandes cidades terão de enfrentar nas próximas décadas: ondas de calor, poluição tóxica, risco climático e pressão demográfica.

Com as mudanças já implantadas, Paris mostra que políticas de escala urbana podem reduzir emissões, diminuir atropelamentos, melhorar qualidade de vida e dar prioridade às crianças em vez dos motores.

O que para muitos parecia utopia agora está sendo replicado. Barcelona desenvolve superquadras, Londres implanta zonas de emissão zero, Milão expande áreas pedonais, e Nova York estuda modelos de “ruas escolares”.

Não é coincidência. No final, a pergunta é simples

Se grandes cidades foram capazes de se reorganizar nas últimas décadas para abrigar milhões de carros, por que não seriam capazes de se reorganizar para abrigar milhões de pessoas?

Paris decidiu responder essa pergunta na prática. E boa parte do planeta está observando.

Fonte: CPG
Escrito por Valdemar Medeiros | Publicado em09/01/2026

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